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Antes de Medir, Alguém Escolheu No Que Acreditar

Métricas não são neutras. Elas revelam e reforçam o jogo que já está em andamento. Entenda por que times que entregam muito ainda assim quebram por dentro.

9 min de leitura

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Série Por Que Times Produtivos Fracassam
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Medir não é entender

Existe uma crença silenciosa que atravessa tecnologia, gestão e organizações modernas sem pedir licença. Ela raramente é dita explicitamente, mas orienta decisões todos os dias, em reuniões, dashboards e planos estratégicos.

Se conseguimos medir algo, então conseguimos entendê-lo. Se entendemos, conseguimos controlar. E se controlamos, estamos sendo responsáveis.

Essa lógica parece razoável demais para ser questionada. Medir soa como maturidade. Números passam seriedade. Gráficos criam a sensação de domínio.

O problema fundamental

Medir algo não significa compreendê-lo — significa apenas escolher uma forma específica, e limitada, de representar a realidade. Toda métrica é um recorte. Uma redução. Uma hipótese implícita sobre o que importa.

Quando esquecemos disso, números deixam de ser instrumentos e passam a ser tratados como verdades. Decisões passam a ser justificadas não porque são boas, mas porque são mensuráveis.

O ciclo de visibilidade

não vivem em um vácuo técnico. Elas existem dentro de sistemas sociais e, nesses sistemas, não apenas descrevem comportamento — elas o moldam.

Aquilo que é medido se torna visível

O primeiro efeito de uma métrica é direcionar atenção. O que não é medido tende a desaparecer das discussões.

O que se torna visível passa a ser discutido

Reuniões gravitam em torno de números. Painéis definem agendas.

O que é discutido vira prioridade

Recursos, tempo e energia fluem para aquilo que aparece nos relatórios.

Não existe métrica neutra. Existe apenas métrica assumida ou métrica usada sem consciência.

Quando eficiência vira anestesia

A confusão começa a ganhar corpo quando tratamos coisas diferentes como se fossem equivalentes.

O que parece igual
  • Atividade
  • Produção
  • Movimento
O que realmente significa
  • Resultado
  • Impacto
  • Progresso

Quanto mais fácil algo é de medir, mais ele tende a ocupar o centro da atenção. Impacto real, por outro lado, é difícil, difuso e lento. Com o tempo, organizações passam a otimizar aquilo que conseguem enxergar melhor — não necessariamente aquilo que mais importa.

O problema da eficiência descontextualizada

É nesse terreno que entra como virtude incontestável. Fazer mais, mais rápido, com menos custo parece sempre desejável.

Eficiência amplifica, não corrige

Eficiência não corrige decisões; ela as amplifica. Aplicada ao problema errado, acelera o desvio. Torna mais rápido aquilo que talvez nunca devesse ter sido feito.

A pergunta raramente feita é “eficiente para quê?”.

Quando métricas viram metas

Por que isso acontece?

Não por perversidade, mas por dinâmica organizacional. Números facilitam comparação, encerram discussões e oferecem justificativas simples para decisões complexas.

Qual o efeito?

Quando uma métrica vira meta, ela deixa de observar o sistema e passa a medir a habilidade do sistema de se adaptar à própria métrica.[1]

O jogo implícito

Todo sistema passa a jogar algum jogo, mesmo quando ninguém o define explicitamente. Algo sempre está sendo otimizado: previsibilidade, aparência de controle, velocidade, tranquilidade política, ausência de conflito.

As métricas não criam esse jogo do nada; elas revelam e reforçam o jogo que já estava em andamento.

Quem escolhe o que medir, escolhe o que importa

Existe uma camada de poder que raramente entra na discussão técnica sobre métricas: quem decide o que medir?

Não é técnico, é político

A escolha do que medir nunca é puramente técnica. Ela reflete prioridades organizacionais, ansiedades da liderança, e estruturas de poder existentes.

Quando a métrica principal vira “velocidade” ou “story points por iteração”, não é apenas uma escolha pragmática. É uma declaração implícita sobre o que a organização valoriza: movimento mensurável sobre impacto difuso, quantidade sobre qualidade, velocidade sobre sustentabilidade.

Exemplo concreto de burnout por métrica:

Uma organização decide acompanhar velocidade do time como métrica principal. Toda iteração, há expectativa de que velocidade suba ou, no mínimo, se mantenha. O time responde:

  • Inflando estimativas para criar margem
  • Fragmentando trabalho para aumentar contagem
  • Evitando tarefas importantes mas difíceis de estimar
  • Trabalhando horas extras para “bater a meta”

Seis meses depois, a velocidade está alta, o painel está verde, mas o time está exausto. Débito técnico explodiu. Funcionalidades importantes foram adiadas porque “não cabiam na iteração”. Ninguém lembra por que começaram a medir velocidade — mas todos sabem que ele precisa subir.

Quem paga o custo?

Desenvolvedores júnior pagam mais: não têm capital político para questionar métricas. Minorias pagam mais: navegam sistemas já hostis enquanto performam sob pressão numérica. Seniors cansados pagam: porque já viram esse filme antes.

A pergunta que deveria ser feita antes de escolher qualquer métrica:

  • Quem se beneficia desta visibilidade?
  • O que fica invisível quando medimos isso?
  • Qual comportamento estamos incentivando implicitamente?
  • Quem paga o custo quando o sistema otimiza para essa métrica?

No Artigo 4, veremos como essas dinâmicas se manifestam em frameworks como DORA — e como consultorias como Gartner legitimam métricas não porque elas são verdadeiras, mas porque reduzem a ansiedade corporativa.

Entrega alta como sinal errado de saúde

É assim que surgem os times que entregam muito e ainda assim quebram por dentro. A backlog anda, o roteiro progride, as implantações acontecem. Para quem observa de fora, tudo parece saudável.

Reconhecimento

Times de alta entrega viram referência. Recebem elogios e visibilidade.

Sobrecarga

Mais demanda, mais pressão, mais responsabilidade chegam como “recompensa”.

Compensação

O custo começa a se acumular. O time sustenta a entrega reduzindo margens de segurança.

Colapso invisível

Cansaço constante, decisões apressadas, sensação de que nunca é um bom momento para parar.

Sistemas humanos não falham de forma abrupta

Eles compensam. Eles empurram o custo para frente. O desgaste não aparece nos números; aparece como cansaço constante, como decisões técnicas apressadas, como a sensação de que nunca é um bom momento para parar.

DevEx como economia cognitiva

É aqui que costuma ser mal compreendida.

O que DevEx não é
  • Conforto operacional
  • Redução de produtividade
  • Luxo para times maduros
O que DevEx é
  • Economia cognitiva
  • Sustentabilidade de entrega
  • Necessidade para qualquer time

Um time com DevEx ruim não necessariamente entrega menos. Ele entrega custando mais. A produção continua alta, mas a energia necessária para sustentá-la cresce em silêncio.

O sinal clássico de DevEx quebrada não é queda de produtividade, mas produtividade alta acompanhada de exaustão crônica.

Como exceções viram regras

Esse padrão se cristaliza na liderança técnica. Não por má intenção, mas porque exceções viram regras:

Aceitar dívida técnica 'só dessa vez'

A urgência do momento justifica o atalho. O débito fica para depois.

Pular entendimento para cumprir prazo

Não há tempo para discussão. A feature precisa sair.

Tratar incidentes como desvios pontuais

Cada problema é visto isoladamente, nunca como padrão.

Cada decisão parece sensata isoladamente. Juntas, ensinam ao sistema que entregar rápido é mais seguro do que entregar bem.

Burnout como efeito colateral de sucesso mal definido

Burnout não é falha individual. É efeito colateral de sucesso mal definido. O time não quebra apesar da alta performance. Ele quebra porque a alta performance vira estado permanente.

O retrabalho vem depois, quando sistemas ficam rígidos, incidentes se repetem e a organização se pergunta por que tudo ficou mais lento.

A cultura real

Nesse ponto, a cultura já está definida. Não pelo que está escrito em valores, mas pelo que foi reforçado:

O que vence
  • Prazos
  • Velocidade
  • Silêncio
O que perde
  • Discussões técnicas
  • Clareza
  • Conflito saudável

Essa é a cultura real. Métricas de entrega dão verniz racional a esse estado das coisas.

A escolha que precede a métrica

entram como lentes, não como soluções. Eles ajudam a enxergar, mas não corrigem problemas mal formulados. Por isso, esta série começa aqui, atrasando a pressa por respostas.

Antes de escolher métricas, escolha o problema que você quer resolver. Se essa escolha não for consciente, o sistema fará por você. E ele não se importa com burnout, DevEx ou pessoas.


FAQ

Perguntas Frequentes

Então métricas são ruins?

Não. Métricas são ferramentas. O problema é usá-las sem consciência das premissas que carregam. Toda métrica é um recorte da realidade — útil quando você sabe o que está recortando.

Como escolher métricas melhores?

Comece pelo problema, não pela métrica. Pergunte: o que estou tentando entender? O que essa métrica não vai mostrar? Qual comportamento ela pode incentivar?

DORA metrics são confiáveis?

DORA oferece um framework útil para medir capacidade de entrega de software. Mas como qualquer framework, funciona melhor quando você entende suas premissas e limitações.


Notas de Rodape

  1. [1]

    A Lei de Goodhart afirma que “quando uma medida se torna uma meta, ela deixa de ser uma boa medida”. Este fenômeno está bem documentado em economia e ciências sociais.

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