DORA, SPACE, DevEx, DX Core 4: Cada Um Responde Uma Pergunta
Times de software não quebram por falta de métricas. Eles quebram porque medem com convicção coisas que não entendem completamente.
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Série Por Que Times Produtivos Fracassam 3/4
Times de software não quebram por falta de métricas. Eles quebram porque medem com convicção coisas que não entendem completamente.
“Produtividade”, “eficiência” e “performance” são palavras usadas com segurança excessiva no discurso técnico e executivo, como se fossem conceitos estáveis, universais e autoexplicativos. Não são. Na prática, elas funcionam mais como atalhos retóricos do que como definições precisas. Cada pessoa na organização escuta essas palavras e projeta nelas uma expectativa diferente — e, ainda assim, todos concordam em medi-las.
O problema da ambiguidade conceitual
É nesse espaço nebuloso que surgem os frameworks de métricas. Eles aparecem como tentativas de organizar o caos conceitual, oferecendo modelos, indicadores e linguagens comuns. O problema é que, quando usados sem reflexão, esses frameworks passam a ser tratados como respostas prontas, quando na verdade são apenas lentes.
E toda lente amplia algumas coisas enquanto distorce ou esconde outras.
A pergunta que precede a métrica
Antes de falar de métricas, portanto, é preciso falar do jogo. Que tipo de problema estamos tentando resolver?
- •Estamos entregando rápido o suficiente?
- •Como reduzir riscos no pipeline?
- •A qualidade do código está adequada?
- •O trabalho é sustentável para o time?
- •Onde está o desgaste cognitivo?
- •O que está sendo evitado ou ignorado?
A resposta muda completamente o que faz sentido medir — e qual framework faz sentido usar.
Os quatro frameworks
Ao longo desta série, vamos falar de quatro frameworks amplamente utilizados para discutir produtividade e eficiência em times de software. Eles não competem entre si, porque não tentam responder à mesma pergunta.
Frameworks não são alternativas
O erro comum é colocá-los lado a lado como alternativas, quando na verdade cada um parte de uma definição diferente do que importa.
DORA: O pipeline
- Frequência de Implantação (Deployment Frequency)
- Com que frequência código chega à produção. Alta frequência sinaliza pipeline confiável e baixo risco percebido.
- Tempo de Entrega para Mudanças (Lead Time for Changes)
- Quanto tempo entre commit e implantação em produção. Mede a rapidez da pipeline.
- Tempo de Recuperação do Serviço (Time to Restore Service)
- Velocidade de recuperação após falhas. Mede resiliência e capacidade de resposta a incidentes.
- Taxa de Falha de Mudanças (Change Failure Rate)
- Proporção de implantações que causam problemas em produção. Mede qualidade do processo de entrega.
O modelo categoriza times em Elite, High, Medium e Low performers. Essa classificação é útil para diagnóstico inicial, mas torna-se problemática quando tratada como objetivo em si.
Útil para: Previsibilidade, confiabilidade e eficiência da pipeline.
Não foi desenhado para: Experiência humana, aprendizado ou desgaste cognitivo. Quando usado fora desse contexto, começa a gerar conclusões que ele nunca se propôs a sustentar.
O que DORA não mede
DORA não captura por que as métricas são como são. Um time pode ter alta frequência de implantação porque automatizou bem — ou porque está sob pressão constante para entregar rápido.
SPACE: O mapa conceitual
A ideia central do SPACE
Produtividade em trabalho de conhecimento é multidimensional e não pode ser reduzida a um único número sem perdas graves.
- Satisfação e Bem-estar (Satisfaction and well-being)
- Sentimento de satisfação, realização e saúde no trabalho. Como desenvolvedores se sentem em relação ao seu trabalho e ambiente.
- Performance (Performance)
- Resultado do trabalho medido por qualidade e impacto, não apenas volume de entregas.
- Atividade (Activity)
- Como o trabalho é feito. Contagem de ações, mas sempre contextualizada — commits, PRs, implantações são sinais, não objetivos.
- Comunicação e Colaboração (Communication and collaboration)
- Como pessoas e times trocam informação e trabalham juntos. Qualidade das interações, não quantidade de reuniões.
- Eficiência e Fluxo (Efficiency and flow)
- Capacidade de fazer trabalho sem fricção ou interrupção. Mede obstáculos que impedem progresso sustentado.
O framework não prescreve métricas específicas. Ele oferece lentes para examinar produtividade de múltiplos ângulos e deliberadamente evita números únicos ou rankings. A força do SPACE está em forçar a pergunta: “o que mais estamos deixando de ver?”
SPACE não diz exatamente o que medir; ele força a pergunta incômoda: por que você quer medir isso e o que está deixando de fora ao fazê-lo? É menos prescritivo e mais filosófico — o que é justamente seu maior valor.
DevEx: A vivência cotidiana
Já o olhar de
A pergunta central não é “o quão rápido entregamos”, mas “o quão difícil é fazer o trabalho certo neste ambiente”.
- Ciclos de Feedback (Feedback loops)
- Quanto tempo para ver resultado de uma mudança — compilação, testes, implantação. Ciclos rápidos aceleram aprendizado.
- Carga Cognitiva (Cognitive load)
- Complexidade que precisa ser mantida na cabeça para trabalhar. Alta carga cognitiva esgota capacidade de decisão.
- Estado de Fluxo (Flow state)
- Capacidade de entrar e permanecer em estado de concentração profunda. Interrupções destroem produtividade real.
- Ferramentas (Tooling)
- Qualidade, integração e confiabilidade das ferramentas. Ferramentas ruins são atrito constante.
- Documentação (Documentation)
- Clareza sobre como sistemas funcionam e decisões foram tomadas. Ausência cria dependência de conhecimento tribal.
- Integração de Novos Membros (Onboarding)
- Tempo e dificuldade para novos membros se tornarem produtivos. Onboarding lento revela problemas sistêmicos.
Fricção excessiva, ferramentas ruins, processos opacos e interrupções constantes não aparecem diretamente em métricas clássicas de entrega, mas corroem a qualidade, a motivação e a sustentabilidade do time ao longo do tempo.
DevEx como leading indicator
Enquanto DORA mede resultado (o que já aconteceu), DevEx mede condições (o que está prestes a acontecer). Um time com DevEx ruim pode manter alta produção por algum tempo — até que não consiga mais.
DX Core 4: A síntese pragmática
Por fim, o
- Ciclos de Feedback Rápidos (Fast feedback loops)
- Velocidade de ciclos (compilação, test, CI, implantação). Quanto mais rápido o retorno, mais rápido o aprendizado e a correção de curso. Esperas longas matam momentum.
- Baixa Carga Cognitiva (Low cognitive load)
- Redução de complexidade desnecessária. Sistemas simples permitem foco no problema de negócio, não na infraestrutura. Complexidade acidental drena energia mental.
- Estado de Fluxo Profundo (Deep flow state)
- Proteção contra interrupções e mudança de contexto. Flow é onde produtividade real acontece — mas é frágil. Ambientes que quebram flow constantemente destroem capacidade criativa.
- Alta Satisfação do Desenvolvedor (High developer satisfaction)
- Sentimento de progresso e realização. Satisfação não é conforto — é senso de que o trabalho importa e evolui. Times insatisfeitos produzem menos e com menor qualidade.
Diferente do SPACE, que mapeia dimensões para reflexão, o DX Core 4 aponta diretamente para onde agir. Cada uma dessas dimensões pode ser medida, mas também pode ser imediatamente melhorada através de ações concretas: melhorar ferramentas, simplificar arquitetura, proteger tempo focado, ouvir retorno.
É menos ambicioso conceitualmente, mas muito mais direto na prática. Quando bem usado, ajuda a transformar diagnósticos difusos em decisões concretas.
Um dos aspectos mais críticos do DX Core 4 é a ênfase em Ciclos de Feedback rápidos. Esperas longas entre ação e resultado não apenas atrasam o trabalho — elas matam o momentum
DX Core 4 como ponto de partida
Se você não sabe por onde começar a melhorar Developer Experience, essas quatro dimensões oferecem um mapa de ação imediato. Não são as únicas coisas que importam, mas são as que mais frequentemente fazem diferença.
O risco: quando frameworks viram ideologia
Até aqui, apresentamos quatro frameworks com respeito. Cada um tem valor real quando usado conscientemente. Mas há um risco que precisa ser nomeado antes que você os encontre em estado degenerado: frameworks podem virar ideologias.
Da ferramenta à doutrina
Quando um framework deixa de ser lente e passa a ser verdade absoluta, ele para de iluminar problemas e começa a escondê-los sob verniz de racionalidade técnica.
Como a degeneração acontece
Fase 1: Adoção honesta — Um time ou organização descobre o framework, vê valor, começa a aplicá-lo conscientemente.
Fase 2: Normalização — O framework vira linguagem comum. “Nosso DORA está bom”, “precisamos melhorar nossa SPACE satisfaction”, “DevEx ruim aqui”.
Fase 3: Burocratização — Frameworks viram requisitos, não ferramentas. Métricas são coletadas porque “é o que se faz”, não porque respondem a perguntas.
Fase 4: Ideologia — O framework vira inquestionável. Questioná-lo é visto como resistência à “modernidade” ou “maturidade técnica”.
Sinais de que você chegou na Fase 4
- Discussões sobre o framework substituem discussões sobre o problema real
- Críticas ao framework são tratadas como heresia, não como contribuição
- Números viram justificativa automática para decisões (“porque DORA diz”, “porque SPACE indica”)
- A organização para de perguntar “por que medimos isso?” e passa a tratar métricas como axiomas
O que os próximos artigos vão revelar
Nos próximos quatro artigos, vamos examinar cada framework criticamente — não para destruí-los, mas para recuperar consciência sobre seus limites, riscos e premissas ocultas.
Artigo 4: DORA — Veremos que correlação não é causação. Que métricas podem descrever e criar realidades. E como Gartner legitima frameworks não porque são verdade, mas porque reduzem ansiedade corporativa.
Artigo 5: SPACE — Exploraremos como complexidade pode ser instrumentalizada. Como “é multidimensional” pode virar desculpa para inação. E por que organizações resistem ao SPACE justamente quando ele seria mais útil.
Artigo 6: DevEx — Descobriremos que “DevEx” virou buzzword de marketing. Que melhorar experiência não é técnico — é político. E que cosméticos (ferramentas novas) não substituem mudança sistêmica (redistribuição de poder).
Artigo 7: DX Core 4 — Entenderemos que pragmatismo pode ser armadilha. Que 4 dimensões podem virar checklist reducionista. E que escolher onde agir exige mais do que frameworks — exige coragem política.
Por que essa série não começa com as respostas
Como vimos no Artigo 2, métricas não são neutras — e escolher o que medir é escolher o que ver e o que ignorar.
Agora adicionamos outra camada: escolher um framework é escolher uma narrativa sobre o que constitui sucesso.
Essa escolha nunca é puramente técnica. Ela reflete prioridades organizacionais, ansiedades da liderança, estruturas de poder.
- ✓Iluminam aspectos antes invisíveis
- ✓Permitem conversas mais precisas
- ✓Facilitam diagnósticos sistemáticos
- ✓São revistos e ajustados constantemente
- ✗Escondem complexidade sob número único
- ✗Substituem conversas difíceis por painéis
- ✗Viram rituais de compliance
- ✗São tratados como verdades inquestionáveis
O compromisso desta série
Não vamos fingir que frameworks são neutros. Cada um carrega premissas sobre o que é trabalho de qualidade, quem importa, e o que pode ser sacrificado. Essas premissas podem estar certas ou erradas — mas raramente são explícitas.
Nos próximos artigos, vamos torná-las explícitas. Não para rejeitar frameworks, mas para usá-los conscientemente. Para que, quando você escolher medir algo, saiba exatamente que jogo está jogando — e esteja disposto a arcar com as consequências dessa escolha.
Métricas não são neutras
Porque, no fim, métricas não são neutras. Elas moldam comportamento, direcionam investimento e definem o que a organização passa a chamar de sucesso.
Frameworks como instrumentos políticos
Escolher um framework é escolher uma narrativa sobre o que constitui trabalho bem-feito. E essa escolha não é técnica — é política.
Quando uma organização decide medir apenas DORA, ela está dizendo implicitamente: “entrega é o que importa”. Quando adiciona SPACE, reconhece que há mais em jogo. Quando investe em DevEx, admite que a experiência humana tem peso. Quando ignora todos e foca em linhas de código ou story points, revela exatamente que jogo está jogando — mesmo que não o admita.
- •Qual framework usar?
- •Que métricas coletar?
- •Como categorizar times?
- •O que conta como sucesso?
- •Quem será recompensado?
- •Que comportamento queremos?
O perigo da burocracia métrica
Frameworks bem-intencionados frequentemente degeneram em rituais vazios. O que começa como tentativa honesta de entender trabalho complexo vira checklist de conformidade.
Sinais de degeneração:
- Métricas são coletadas, mas ninguém age sobre elas
- Times otimizam para parecerem bem nos números, não para melhorarem de fato
- Discussões sobre métodos de medição substituem discussões sobre problemas reais
- Frameworks viram requisitos de compliance, não ferramentas de diagnóstico
- A linguagem dos frameworks substitui conversas diretas sobre dificuldades
Quando isso acontece, o framework deixou de iluminar o problema e passou a ser o problema.
A responsabilidade de quem mede
Medir é intervir. Não existe observação neutra de sistemas sociais.
A escolha fundamental
E tudo isso começa com uma escolha simples — e raramente explícita: qual jogo estamos realmente tentando ganhar?
Se você não escolhe conscientemente, o sistema escolhe por você. E sistemas, deixados à própria sorte, tendem a otimizar para previsibilidade, controle e ausência de conflito — não para aprendizado, qualidade ou sustentabilidade.
Antes de adotar qualquer framework, pergunte:
- Que problema estou tentando resolver com essa métrica?
- Que comportamento ela pode incentivar inadvertidamente?
- O que ela deixa invisível?
- Quem se beneficia se essa métrica melhorar?
- Quem pode ser prejudicado?
Frameworks são lentes. Úteis quando você sabe o que está procurando e consciente do que está ignorando. Perigosos quando tratados como verdades objetivas sobre trabalho humano.
A pergunta não é qual framework é melhor. A pergunta é: você sabe que jogo está jogando?
Notas de Rodape
- [1]
Momentum, no contexto de desenvolvimento de software, refere-se ao estado psicológico de progresso contínuo e engajamento. É a sensação de estar avançando de forma consistente, onde cada ação gera resultado visível rapidamente, criando um ciclo virtuoso de motivação e produtividade. Quando o momentum é perdido — por compilações lentas, processos burocráticos, ou esperas prolongadas — o custo não é apenas temporal: é cognitivo e emocional. Times perdem o foco, a energia mental se dissipa, e retomar o contexto requer esforço adicional. Proteger o momentum é proteger a capacidade do time de trabalhar em estado de flow.
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